Que é rezar?

Pareceu-nos necessário apresentar-vos, neste quarto Caderno, uma visão geral sobre a oração.  Este artigo permitir-vos-á organizar os múltiplos aspectos da vida de oração que foram ou que serão abordados nesta «série iniciação».

O museu de Berlim possui uma estátua atribuída a Boëdas, filho e discípulo de Lisípio, o grande escultor.  Este bronze de 1,28 m de altura representa um adolescente.  Trata-se de uma das mais belas criações da arte grega:  não só pelas suas formas admiráveis, mas também pela vivacidade e, dir-se-ia, pela mobilidade das linhas.

Quando se procura a origem desse frémito da vida, somos levados a notar que o pé direito, ligeiramente atrás do esquerdo, com o calcanhar levantado, mal toca o chão.  Este gesto discreto, tão pouco visível, basta para transmitir um ritmo a todo o corpo — ritmo que se encontra ao nível das ancas, ligeiramente assimétricas, ao nível dos braços erguidos num gesto de oferenda e ao nível dos olhos voltados para o alto.

Indiscutivelmente este bronze tem alma.  O ritmo das formas revela um ímpeto espiritual.  Espera-se que, de repente, dele emane um cântico muito puro.

Adolescente em oração:  é assim que esta obra é designada na história da arte.

Se eu fosse conservador do museu de Berlim, colocaria o adolescente sozinho no meio de uma sala onde grandes tapeçarias em tons vivos evocassem toda a criação:  os astros, os rios, as florestas, as flores multicolores, os vários animais.  Aos olhos dos visitantes, o papel do nosso adolescente revelar-se-ia então em toda a sua plenitude.  De pé no meio de uma criação ignorante do seu esplendor, ele próprio é o ser inteligente que empresta a sua voz e o seu coração a este universo para cantar, em nome de todos os seres, a alegria de existir e de viver.

E se eu tivesse de afixar um texto junto a esta estátua pagã, não hesitaria:  iria ousadamente buscá-lo ao nosso grande Bossuet:

A criatura insensível não consegue ver, mas revela-se; não consegue amar, mas exorta-nos a fazê-lo, e não nos permite ignorar esse Deus que ela não ouve.  É assim que, de forma imperfeita e à sua maneira, ela glorifica o Pai celeste.  Mas, para que ela consuma a sua adoração, o homem deve ser o seu mediador.  Cabe-lhe a ele dar uma voz, uma inteligência e um coração ardente de amor a toda a natureza visível, para que esta ame, nele e por ele, a beleza invisível do seu Criador.  É por isso que o homem é colocado no meio do mundo, síntese laboriosa do mundo… para que, contemplando todo o universo e reunindo-o em si mesmo, o ofereça, o santifique e o consagre ao Deus vivo.

Cadernos sobre a oração — Série Iniciação IV — Janeiro 1967 — pp. 98-116